“Sem mim . . . ”

Ainda se sentia “azamboada”! Sentou-se num pequeno café junto da saída do hospital para tentar colocar a cabeça em ordem. Pegou numa caneta e na sua agenda, sabendo que isso a ajudaria a pensar. O que o médico lhe tinha dito sobre a sua saúde era grave, mas não conseguia deixar de pensar como ia resolver os compromissos profissionais. Como poderia estar os próximos dois meses internada se tinha oito festas para realizar.

 

O seu espírito empresarial tinha-se revelado cedo e ao longo dos anos tinha tido vários pequenos negócios, normalmente ligados ao comércio e aos serviços. Nos últimos cinco anos, aproveitando as diversas experiências, tinha criado a “BySónia”, dedicando-se à organização de festas em quintas na zona de Sintra – Cascais.

 

Os “casamentos” começaram por ser um complemento do Café “gourmet” que tinha aberto alguns anos antes. Como o serviço que prestava era profissional e de qualidade, um cliente foi passando a outro e ao fim de três anos já faturava, entre Abril e Outubro, muito mais com este negócio do que no “Gourmet da Sónia” em todo o ano. Decidiu por isso, “passar” o café e dedicar-se à organização de eventos, até porque gostava da adrenalina que aquela atividade lhe proporcionava.

 

Sónia descobriu rapidamente que organizar uma festa, especialmente um casamento, exigia um enorme empenho e uma disponibilidade total, que começava muitas semanas antes do dia da sua realização. São momentos únicos na vida dos clientes, pelo que o nível de exigência é elevadíssimo e tudo tem que estar mais do que perfeito. Não há margem para erros, mesmo que todos saibam que o conjunto de fatores que podem interferir são infindáveis. Isso obriga a um planeamento de todos os detalhes a que acresce uma enorme capacidade de responder rápida e eficazmente a todos os imponderáveis que vão surgindo no dia do evento. O fim de cada festa era sempre de uma enorme descompressão para si e para a sua equipa.

 

Achava particularmente interessante a ansiedade dos familiares dos noivos quando chegavam ao local do “copo de água” uns minutos antes da hora de iniciar a receção dos convidados e viam que ainda nada estava preparado. Entravam literalmente em pânico e era necessário um esforço grande para os sossegar e garantir que tudo estava sob controlo. E a verdade é que estava. À hora prevista as mesas estavam vestidas e montadas e a sala lindamente engalanada. Nunca mais se lembravam dos momentos de pânico.

 

Aos longos dos anos fora construindo uma excelente equipa, mas a verdade é que o seu papel era absolutamente central. Era ela que “vendia” a festa. Era ela que negociava com os fornecedores. Era ela que planeava e programava o evento até ao mais pequeno detalhe. Nos dias anteriores, era ela que “checava” tudo de forma a evitar riscos. No dia do evento não tinha mãos a medir. Transportava a equipa para o local da festa, ia aos fornecedores recolher alguns bens, distribuía tarefas, recebia os convidados, dava uma mão na cozinha e no serviço de mesas, resolvia pequenos problemas e no fim despedia-se dos convidados e ajudava nas arrumações. Por muito que confiasse na equipa, sabia que ela era imprescindível. Sem ela . . .

 

Regressou ao seu problema. O médico fora claro, a intervenção cirúrgica não podia esperar e o tempo de internamento e recuperação habitual era de pelo menos dois meses. Coincidia com a época alta dos casamentos e tinha em agenda oito festas nesse período. Que poderia fazer. Informar os clientes da impossibilidade de prestar o serviço? Era tarde de mais e ia, seguramente, originar o pagamento de grandes indemnizações. Transferir o serviço para um concorrente? Seria difícil porque todos estavam sobrelotados de trabalho e isso faria com que o seu regresso à atividade fosse muito mais difícil. Só via uma solução. Instruir bem a equipa e confiar no seu profissionalismo. Foi isso que fez.

 

Quando, passados alguns meses, Sónia regressou à atividade percebeu que as oito festas se tinham realizado sem problemas e com agrado dos clientes. Ninguém a substituiu porque as pessoas (contrariamente às funções) não são substituíveis. Cada pessoa é única e faz as coisas à sua maneira. Mas verdade é que o seu papel foi desempenhado por outras pessoas, cada uma delas, fazendo-o com o seu estilo pessoal e talentos únicos.

 

Compreendeu que como dizem os Anglo Saxónicos “people cannot be substituted but can be replaced”!

 

José Bancaleiro

Managing Partner

Stanton Chase International – Your Leadership Partner

 

[Artigo disponível na revista Human de Fevereiro Pag. 1 e Pag. 2]