Glassdoor

O contacto do cliente surgiu na sexta-feira à tarde. A saída inesperada do Diretor Industrial originava uma vaga com necessidade de preenchimento urgente. Combinámos uma reunião para clarificar o perfil às 15 horas de segunda-feira na região de Tomar. Como gosto de bons restaurantes, era uma excelente oportunidade para uma nova experiência gastronómica. Só faltava investigar a oferta e escolher.

Se fosse há uns anos, teria telefonado a um ou dois colegas (provavelmente Delegados de Informação Médica) da região e eles dar-me-iam as suas indicações. Mas, felizmente, vivemos tempos em que temos mais e melhor informação disponível à distância de um clique. Fui ao trypadvisor, pesquisei restaurantes em Tomar e imediatamente surgiu toda informação que eu pretendia, organizada de forma muito compreensível e com todos os detalhes.

Já ouvira falar de alguns daqueles restaurantes, pelo que me fixei num deles. Parecia ter uma classificação média e reparei que mais e seiscentas pessoas tinham registado a sua experiência naquele local. Algumas elogiavam a decoração “típica e singular” do local, mas a larga maioria referia aspetos poucos recomendáveis: “Muita fama, porém o atendimento é péssimo”, uma “completa desorganização”, “muito demorado”, “comida fria”, etc.

Consultei o perfil de outro restaurante situado na mesma zona e constatei que as opiniões eram claramente mais favoráveis: “empregados atenciosos”, “o prato de bacalhau fantástico”, “ambiente calmo”, “uma agradável surpresa”. Não tive dúvidas e optei por este segundo restaurante, o que se veio a confirmar ter sido uma boa decisão.

Durante a viagem de regresso, vinha a meditar sobre como, nalguns aspetos, as tecnologias contribuíram para um mundo diferente e melhor, facilitando a partilha das boas e más experiências em benefícios de todos. E, como profissional de gestão de pessoas, a minha imaginação voou. Como seria fantástico, se, à semelhança dos clientes dum restaurante ou hotel, os colaboradores registassem numa qualquer “Employer advisor” as opiniões sobre as suas experiência nas empresas por onde passam. Seguramente que isso teria sido útil a muita gente na altura em que tiveram de decidir sobre mudar ou não de empresa empregadora.

A boa notícia é que esse tipo de “plataforma” já existe e está em crescimento exponencial em todo o mundo. Chama-se (passe a publicidade) “Glassdoor” (www.glassdoor.com/Reviews/index.htm) e as grandes empresas internacionais já começam a ter muitas informações registadas por colaboradores e ex – colaboradores.

Na verdade, imagine que está que está na fase final de dois processos de recrutamento. Tal como costuma fazer com o trypadvisor para escolher o restaurante, decide aceder ao “Glassdoor” para tomar a decisão sobre onde gostaria e onde não gostaria de trabalhar. Na primeira empresa, verificou que existiam mais de quatrocentas “reviews”, a percentagem de recomendações era de 34% e muitos dos comentários referiam: “conflitos frequentes”, “por muito que trabalhemos nunca somos reconhecidos”, “gostei do trabalho, mas o salário era miserável”, “Management changes their minds every week, sommetimes every day”. Na segunda, com cerca de quinhentas “reviews” e uma percentagem de recomendações superior a 90%, a maioria dos comentários mencionava “excelentes processos de trabalho”, “ambiente cooperativo”, “Passionate leadership with a clear mission and infectious enthusiasm”, etc. Não temos dúvidas sobre qual seria a sua decisão!

Mesmo havendo uma enorme diferença entre o que é dito e o que é praticado, todos sabemos que são pessoas talentosas que fazem projetos de sucesso e todos sentimos que a competição por essas pessoas é cada vez mais renhida. O crescente investimento por parte das empresas em estratégias de “employer branding” é a consequência e a confirmação disso. Nada é mais importante para a “marca” duma empresa do que a opinião das pessoas que lá trabalham. São elas, para bem e para mal, as grandes embaixadoras. Plataformas como a “Glassdoor” significam a entrada numa nova dimensão neste campo.

A importância que é (verdadeiramente) dada às pessoas vai estar exposta aos olhos de todos. Vai ser muito mais difícil aos gestores argumentarem que “não sabiam” ou tentarem dissimular a realidade com campanhas de Marketing.

Cuidem-se!

Sintra, 12 de Agosto de 2018

José Bancaleiro

Managing Partner

Stanton Chase International – Your Leadership Partner